Anexa ao diário que achei no sótão da casa que aluguei para fundar a Editora La Femme.
Paris – novembro/76
Tua carta chegou trazendo o samba e o cheiro do mar, tão azul quanto um colar de conchas e colibris.
Ah, irmão, você nem imagina – (nem de longe), o que é viver em Paris, muito menos amar a mulher azul... Marina chorou por mim? Coitada! Ficou sem eira nem beira depois que fui embora. Cuida dela, por favor. Ela é menina frágil, sempre foi.
Desde criança vivia se escondendo atrás de mim para não apanhar Você sabe, minha mãe sempre foi beata e fez dela essa Maria Santa de todos os brasis – moça com olhar de velha, coitada da Marina! Gosta de ficar na janela imaginando Judas preso ao poste da praça na malhação do sábado de aleluia.
Faça uma gentileza cá para teu “mano - Vende a mobília, paga o aluguel atrasado e cancela o contrato, porque Brasil e corcovado, sabe –se lá quando?! Sou agora cativo e prestes a conhecê-la pessoalmente – minha borboleta azul. Sabe Carrilho, aí no Brasil também tem mulher azul, é só procurar. Tem poucas, na verdade. Aqui em Paris tem muitas, mas nenhuma tão especial quanto a minha.
Eu estou lecionando Francês em aulas particulares, que é onde ganho mais dinheiro, ahahaha... Vou me virando. Veja lá quanto eu devo além do aluguel e paga. Você tem carta branca e pode movimentar a conta poupança.
Dê a Marina o que ela necessita. Se precisar mais eu envio.
Nem adianta vir aqui com essa idéia de levar-me embora, porque agora sou *L’brasilien.
G. Apolinário (professor de Frances e brasileiro de coração.
La Femme Blue
Por Lu Cavichioli




