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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Um Sonho em Paris: O devaneio e a carta

Carta de G. Apolinário para A.C. - enviada antes de seu desaparecimento (prematuro e irreal, para todos os que o amavam).

 Anexa ao diário que achei no sótão da casa que aluguei para fundar a Editora La Femme.
Paris – novembro/76
 
 
 
A.C. – amigo irmão,

Tua carta chegou trazendo o samba e o cheiro do mar, tão azul quanto um colar de conchas e colibris.

Ah, irmão, você nem imagina – (nem de longe), o que é viver em Paris, muito menos amar a mulher azul... Marina chorou por mim? Coitada! Ficou sem eira nem beira depois que fui embora. Cuida dela, por favor. Ela é menina frágil, sempre foi.
 Desde criança vivia se escondendo atrás de mim para não apanhar Você sabe, minha mãe sempre foi beata e fez dela essa Maria Santa de todos os brasis – moça com olhar de velha, coitada da Marina! Gosta de ficar na janela imaginando Judas preso ao poste da praça na malhação do sábado de aleluia.

Faça uma gentileza cá para teu “mano - Vende a mobília, paga o aluguel atrasado e cancela o contrato, porque Brasil e corcovado, sabe –se lá quando?! Sou agora cativo e prestes a conhecê-la pessoalmente – minha borboleta azul. Sabe Carrilho, aí no Brasil também tem mulher azul, é só procurar. Tem poucas, na verdade. Aqui em Paris tem muitas, mas nenhuma tão especial quanto a minha.

Eu estou lecionando Francês em aulas particulares, que é onde ganho mais dinheiro, ahahaha... Vou me virando. Veja lá quanto eu devo além do aluguel e paga. Você tem carta branca e pode movimentar a conta poupança.

Dê a Marina o que ela necessita. Se precisar mais eu envio.

Nem adianta vir aqui com essa idéia de levar-me embora, porque agora sou *L’brasilien.

G. Apolinário (professor de Frances e brasileiro de coração.


 
La Femme Blue


Por Lu Cavichioli

domingo, 27 de janeiro de 2013

Fragmentos de um devaneio

Amigos, gostaria muito de dividir com vocês uma série de textos (ainda em execução)que devem compor uma releitura da obra de Roberto Drummond, um escritor que revolucionou a literatura nos anos 70 com sua escrita despojada e direta.

Nestes ensaios eu reescrevo uma obra que o consagrou e que lhe rendeu o Premio Jabuti de Literatura. A obra em quetão é: A MORTE DE D. J. EM PARIS - para quem já leu será mais fácil fazer a releitura através de minha escrita. Para quem não leu, deixo aqui uma excelente indicação de leitura, entre outras, deste autor pós-moderno que grande influencia teve em meu estilo.

Neste primeiro momento apresento a vocês um pequeno texto de abertura entre os demais ensaios.



Fragmentos de um devaneio
(sussurros de um homem atormentado)


Prólogo

Escrevo sobre G. Apolinário – (um de meus personagens que invariavelmente perde-se entre suas múltiplas personalidades) - no caso, G. Apolinário é D. J. de R. Drummond.

Não tenho dormido quase nada pra falar a verdade. Aceitei a sugestão de meu vizinho de quarto e passei a usar protetores auditivos para afastar o barulho incandescente do transito.
Em algumas noites tomo um comprimido para dormir. Outras, fico de olhos pregados no teto em cruz de meus escárnios.

Um ronco imaginário dorme a meu lado, enquanto lá fora a chuva castiga a vidraça. Sei que almas viram estátuas no ponto de ônibus eternamente plantado em frente à minha janela. Acendo a luz do abajur vermelho, tipo cereja doce e ligo o ventilador de teto. Depois acendo um cigarro só pra relaxar.

Paris grita enlouquecida e iluminada. Quem sabe eu seria mais feliz se estivesse sentado em um dos milhares de cafés espalhados pela sexta-feira com cara de sábado.

Em meus sonhos (quando os tenho), encontro com ela. Encantadora de meus pensamentos, que assobia e dança com a música que sai de seus sapatos. Ela, que desfila e desnuda a neblina. Que fala a meus ouvidos com voz de blues.